20/07/2009

1999

_ Visita à esta hora?

Vão pensando cada uma das filhas, se aninhando em suas camas tentando prolongar o sono. Mas o barulho era estranho e intenso e ainda eram 7h00 da manhã!!! A movimentação era na sala, na cozinha, no corredor...

_ Só falta entrarem aqui!

Pensa a filhaprimeira, se revolvendo no cobertozão marrom, já saltando do beliche branco de tubo, num misto de irritação e curiosidade, afinal,

_ isso era hora de se visitar alguém?

A mãe adentra o quarto, tirando cada uma de seus pensamentos... talvez pudesse explicar tudo aquilo... ela vai falando assim de forma direta e rápida, como lhe era peculiar....

_ filha, o pai faleceu!

_ tá. – uma pausa pra organizar as idéias - que horas foi?

_ De madrugada, ás cinco da manhã.

Outra pausa.

_ Vem levanta, já tem gente em casa.

A cama antes confortável, parecia-lhe áspera. A sensação era até de que estava se mexendo.... mas espere...estava mesmo.... era a filhasegunda na cama de baixo. A esta altura, recebera o fatídico recado.

Leva um tempo pro cérebro humano computar esse tipo de informação. Dez minutos. Oito horas. Alguns anos. Nunca. Cada uma processa de modo diferente. Depende da fé, das forças, do preparo. Depende de si mesmo.

Instaurou-se a correria e o caos. Desenas de pessoas entrando e saindo, o telefone a 10.000 ligando pra Deus e o mundo, fazendo de tudo pra estrgar o sábado de quantas mais pessoas fossem possíveis de contatar.

O sábado.

Ironicamente lindo, com um sol luminoso de verão que invadia todos os comodos do apartamento.

O telefone.

O telefone era o que mais fazia doer. Diferentes pessoas repetindo, repetindo vez após vez o fato que muitos ainda rejeitavam para si mesmos, num ato de auto-preservação.

A esta altura onde estaria a irmãsegunda? O canto choramingado misturado com lágrimas, que vinha da direção do banheiro denunciava seu paradeiro. Ter um tempo com o Pai no chuveiro era o único lugar seguro no meio daquela balbúrdia. Ao longo do dia cada uma das quatro usaria deste recanto como recurso pra se refazer por dentro. E naõ somente neste dia como em muitos, muitos outros. Era a combinação perfeita: angústia + choro + oração + louvor + banho.

Foi assim nesta casa. Sem quebrar nada, sem gritaria, sem desepero.

Só dependência de deus.